sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Cemitério: como está a sua ultima morada?
Desde muito pequeno, eu já ia ao cemitério Santo Antônio de Pádua. Me lembro que por diversas vezes fiz “turismo” com minhas tias e tios caminhando entre túmulos.Quantas lembranças, quanta história aquele lugar nos reserva e nos apresenta. Se não me falha a memoria já fui ao cemitério nesse ano de 2013 mais de uma dúzia de vezes e comparo o cemitério a uma casa, que se bem cuidada nos alegra e se abandonada e se esquecida nos deixa sem teto e nos assombra!
Mais recentemente estive por lá para a cerimônia de sepultamento de um familiar. A tristeza que senti, compartilhada por meus familiares, foi acrescida de uma profunda vergonha. Como pode e o que levou aquele espaço de despedidas (sepultamentos) e lembranças (visitas) da minha cidade ter se transformado, em linguagem figurativa, em um imenso matagal, com os carrapichos bloqueando o trânsito das pessoas, os cupins se sobrepondo às sepulturas (notoriamente aquelas que não possuem a cobertura em cimento), dezenas de túmulos abertos, ondes as vestes dos cadáveres misturam-se com lixos como garrafas pet e outros.
A antiga sede do Instituto Médico Legal (IML) foi transformada em depósito de ferramentas, com as vidraças quebradas e praticamente com a edificação caindo aos pedaços. Como pode que túmulos, como se aquele fosse um local destinado ao lucro, estejam sendo construídos atrelados ao muro que separa o lado interno de avenidas movimentadas como a Coronel Ponciano? Como pode ainda, que banheiros fétidos e com a estrutura hidráulica comprometida (o mesmo acontecendo com as caixas de água, que literalmente jorram dinheiro público apesar dos inusitados reparos feitos com durepox) sejam cenário para o momento triste, como já disse, da despedida ou da lembrança???
Tenho minha tese sobre como e porque esse descaso acontece. Para ilustrá-la, recorro a uma “lenda” (não tão lenda assim) que permeia as administrações públicas. Poucos gestores se dedicam, por exemplo, a buscar em Brasília ou aplicar recursos próprios em drenagem, aquelas tubulações que ficam embaixo da terra, mas que são fundamentais para que haja o saneamento básico (e com ele o fim das doenças transmissíveis pelas enxurradas).Tubos embaixo da terra não aparecem e, portanto, não rendem votos. “Melhor fazer uma praça, asfaltar uma rua ou algo assim, que salte aos olhos”. É esse o pensamento medíocre de muitos! Assim, ainda de acordo com a minha tese, os gestores que até hoje passaram pela Prefeitura e optaram por fazer apenas obras cosméticas no período próximo ao Dia de Finados seguiram essa lógica perversa: morto não vota. Esqueceram-se, porém, de que os gestores não m mirar apenas as urnas. Devem pensar também em amenizar a dor dos munícipes que lhe confiaram à gestão da cidade, nela incluída a última morada de seus entes queridos. Ali jazem os restos mortais de pioneiros que ajudaram ou mesmo vieram para fundar a cidade frondosa onde vivemos. Ali jazem também os restos mortais de tantos outros, que quando vivos, derramaram seu suor no dia-a-dia de Dourados. Dentre “tantos famosos” e “tantos anônimos” estão aqueles, de menor posse, cujas famílias estão vendo as lápides, as cruzes simples com o nome escrito a mão sendo soterradas pelos cupinzais.
Mesmo na morte, as diferenças sociais estão presentes, bastando uma visita a um cemitério mantido pela iniciativa privada e municipal, não só aqui, mas em todas as cidades medianas desse nosso Brasil que não cuida bem de seus vivos e que, infelizmente, se esquece de seus mortos! As obras de preparação do Cemitério para o Dia de Finados já começaram. Haverão floristas, um certo tom comercial na entrada e superficialmente, no interior do Cemitério, tudo estará adequado para o momento anual de visita aos que já não estão conosco. Todavia rogo ao Prefeito Murilo que faça diferente dos demais gestores: que o que se verá no Dia de Finados, acrescido de uma ampla reforma e da aquisição de uma nova área para o Cemitério já superlotado, seja visto todos os meses do ano. O Cemitério, conquanto espaço de circunspecção, não precisa ter seu aspecto fúnebre aumentado pela omissão do Poder Público.
Que o Prefeito designe uma equipe para fazer a manutenção diária do nosso Cemitério. E que cada um de nós, mortais com prazo de validade incerto, também façamos a nossa independente do dia Dois de Novembro de cada ano.
Peço que o Prefeito de Dourados inscreva seu nome na história por ser o primeiro a não olhar para os nossos entes queridos lá sepultados apenas no período de Finados, dando um olhar constante e programado no que tange o cuidado para com o Cemitério Santo Antônio de Pádua. Um olhar vivo, que aquele ambiente nunca teve. Pensemos!
* O autor, Marcelo Mourão, é vereador em Dourados


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