segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Se engravidar, não beba



O Ministério da Saúde, o Detran e órgãos correlatos têm, acertadamente, feito campanhas massivas sobre o perigo da mistura álcool e direção, sintetizadas no bordão “se beber não dirija”. Tomo emprestado, como pediatra, parte desse alerta para recomendar: “Se engravidar, não beba”. E justifico. 
Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que a cada ano 12 mil bebês no mundo nascem com a Síndrome Fetal do Álcool ou Síndrome do Alcoolismo Fetal (SAF) ou 2,2% de cada mil nascimentos vivos. A SAF é a consequência no feto do consumo de álcool durante a gravidez e é irreversível.Caracteriza-se por retardo no crescimento intrauterino, retardo do desenvolvimento neuropsicomotor e intelectual, distúrbios do comportamento (irritabilidade e hiperatividade durante a infância), diminuição do tamanho do crânio (microcefalia), malformações da face como nariz curto, lábio superior fino e mandíbula pequena, pés tortos, malformações cardíacas, maior sensibilidade a infecções e maior taxa de mortalidade neonatal. Por vezes, o bebê ao nascer não apresenta algum defeito físico, mas alguns sintomas podem não serem óbvios até que o bebê complete entre três e quatro anos. O peso de um bebê que foi exposto ao álcool é normalmente inferior ao dos bebês de mães que não beberam durante a gravidez. O peso ao nascimento de bebês afetados pelo álcool é de aproximadamente 2 quilos e dos bebês saudáveis é de 3,5 quilos. 
Conforme a criança cresce, outros prejuízos começam a aparecer, entre os quais a memória fraca, falta de concentração, raciocínio fraco e incapacidade de aprender com a experiência. A exposição do feto seja em que época da gravidez, ao álcool não tem como consequência necessariamente a SAF, porém, como veremos mais adiante, o mais indicado é a abstenção total do consumo durante a gestação. Na maioria dos recém-nascidos prejudicados pela ação do álcool antes do nascimento não ocorre anomalias faciais e a deficiência do crescimento que identificam a SAF. Mesmo assim, todos os pequenos que são expostos ao uso de álcool portam danos cerebrais e outros comprometimentos tão significativos quanto os que ocorrem nos portadores da SAF. 
Se esses prejuízos à saúde do feto e da criança já são suficientes para se evitar peremptoriamente o álcool durante a gestação, novas pesquisas aumentam a certeza sobre os males que a desobediência a essa regra pode causar. O consumo de álcool por mulheres durante a gravidez pode trazer implicações ao desenvolvimento cognitivo das crianças quando estas estiverem em idade escolar. De acordo com uma pesquisa realizada na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, crianças cujas mães admitiram utilizar álcool em uma quantidade de três ou mais doses por ocasião por mais de nove dias durante toda a gestação tiveram pontuação média menor no teste de avaliação cognitiva a que foram submetidas. O desenvolvimento cognitivo está relacionado à abstração, atenção, linguagem receptiva, função executiva, concentração, memorização e ao julgamento crítico. 
O que nos preocupa é que, segundo dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (Cebrid) de 2005, 5,7% das mulheres consomem bebida alcoólica, e um estudo publicado em 2007 pelo grupo da pesquisa em Ribeirão Preto, chamado Programa de Ações Integradas para Prevenção e Atenção ao Uso de Álcool e Drogas na Comunidade (PAI-PAD), aponta que 22% das mulheres fazem uso de álcool durante a gravidez. O efeito mais severo da exposição pré-natal ao álcool já identificado corresponde a Síndrome Fetal do Álcool, descrita inicialmente em 1973. A síndrome consiste em anomalias no desenvolvimento físico, comportamental e cognitivo de pessoas expostas à bebida desde sua gestação. 
A Sociedade Brasileira de Pediatria tem reforçado a importância de mais estudos na área, com mais casos de exposição e com a utilização de marcadores biológicos, para possibilitar uma detecção precoce dos efeitos adversos do uso do álcool na gravidez e extensão dos danos no desenvolvimento cognitivo. Isso possibilitaria a criação de possíveis intervenções para redução dos danos causados aos bebês e futuro adultos. Os resultados podem ser úteis na realização de outros estudos na área de álcool e drogas, assim como na formulação de políticas públicas de prevenção e tratamento dos distúrbios do espectro alcoólico fetal. 
Finalizo este artigo, direcionado às futuras mamães, alertando para os efeitos danosos do álcool em todas as faixas etárias. E lembrando que, no caso das crianças, o exemplo maior, o espelho em que elas se miram, são os pais.O álcool não deve ser evitado apenas na gravidez e por mulheres.Todos que prezam pela saúde e qualidade de vida devem levar em conta que a melhor bebida é a água. 


*O autor, Eduardo Marcondes, é médico pediatra, ex-secretário municipal de Saúde e ex-vereador

0 comentários:

Postar um comentário