Desde 2007, o dia 02 de abril foi definido pela ONU como o Dia da Conscientização do Autismo. Essa data, através do seu simbolismo, tem trazido um diálogo maior da sociedade através das famílias e de indivíduos com Autismo e os profissionais que atuam nesta área. Veio como um alerta necessário para que os Transtornos Invasivos do Desenvolvimento (TID), antes considerados raros, fossem vistos com maior responsabilidade. Pesquisas e interesse pelo TID, onde o Autismo aparece como o mais prevalente, têm aumentado ano a ano, produzindo mais conhecimento, desmistificando situações anedóticas e afastando o que não é científico.
Com isso, os critérios diagnósticos se ampliaram e o olhar sobre o Autismo fez com que um número maior de casos fosse diagnosticado.
A prevalência do autismo é de cinco a vinte casos por 10.0000 nascidos. Estudo recente realizado por Fombonne, em 2009, refere uma prevalência de até 30 casos por 10.000 quando considerado todos os TIDs. Em geral, tem seu início no primeiro ano de vida em 25% dos casos, 50% no segundo ano, e 25% a partir do terceiro ano de vida. É considerado um distúrbio de desenvolvimento complexo, com etiologias múltiplas, e variados graus de comprometimento.
Nesse contexto, a responsabilidade do pediatra, a especialidade que abracei, na identificação precoce do autismo fica muito evidente. O conhecimento de que é possível o diagnóstico antes dos 36 meses, a disponibilidade de instrumentos de triagem, e a certeza dos resultados benéficos dos programas de intervenção precoce fazem do pediatra um participante ativo e potencial para o reconhecimento do Autismo.
A Sociedade Brasileira de Pediatria, acompanhando a evolução da pediatria e preocupada com a nova agenda do pediatra para o século XXI, tem preparado e incentivado, através dos diversos eventos científicos, os pediatras brasileiros para o diagnóstico dos TIDs.
A identificação precoce dessas condições modifica de forma marcada o prognóstico e a qualidade de vida das crianças e de suas famílias.
As características que indicam transtornos globais do desenvolvimento em crianças aparecem principalmente na fase dos relacionamentos sociais. Os sintomas presentes nas crianças autistas são identificáveis como, por exemplo, quando preferem estar só, não formam relações pessoais intimas, não abraça, evita contato no olho, resiste a mudanças, é excessivamente presa a objetos familiares e repete continuamente certos gestos e rituais, começa a falar mais tarde, podem usar o idioma de modo estranho ou pode não conseguir usá-lo, pode não querer não poder ou não querer falar nada.
A criança autista pode ter dificuldades a entender o que falamos, pode repetir as palavras dita a ela mesma (ecolalia), inverte o uso de pronomes usando principalmente o ‘tu’ em vez do eu ou mim para referir-se a si própria.
Devemos lembrar que em função da evolução dos tratamentos, o autista tem conseguido cada vez mais melhorar esse padrão de relacionamentos interpessoais.
Os tratamentos do autismo para o Transtorno do Espectro Autista geralmente são programas intensos e abrangente que envolve a criança, a família e os profissionais, sendo indicado começar o mais cedo possível. Os programas de intervenção para os principais sintomas abordam as questões sociais, de comunicação e cognitivas centrais do autismo. Os objetivos do programa para o tratamentos do autismo são traçados de acordo com as dificuldades e habilidades da criança, sendo levada em conta a fase de desenvolvimento em que se apresenta. Geralmente a intervenção comportamental, a terapia fonoaudiológica, ocupacional e psicopedagógica fazem parte do programa para os tratamentos do autismo.
O TEACCH – Treinamento e Ensino de Crianças com Autismo e Outras Dificuldades de Comunicação Relacionadas oferece estratégias cognitivas e comportamentais nos tratamentos do autismo que auxiliam os professores a intervir na capacidade de aquisição de habilidade do aluno. O método fornece técnicas de organização, estruturação, repetições e treinamento, considerando pré-requisitos importantes para a alfabetização. O ambiente físico e social é organizado com a utilização de recursos visuais, para que a criança possa prever e compreender as atividades diárias com mais facilidade e ter reações apropriadas.
Os programas de TEACCH são geralmente dados em uma sala de aula, mas também podem ser feitos em casa e são usados em conjunto com aqueles destinados à sala de aula. Os pais trabalham com os profissionais como co-terapeutas para que as técnicas possam ter continuidade em casa. É usado por psicólogos, professores de educação especial, fonoaudiólogos e profissionais devidamente treinados.
Indivíduos com autismo, incluindo aqueles com Síndrome de Aspeger e suas famílias, enfrentam grandes desafios ao redor do mundo ao longo de toda vida. A criação de um ambiente facilitador para o autismo é o caminho para uma vida melhor para todos que venham a ser tocados pelo autismo e todos os problemas que tendem a estar associados com ele. Melhorar o conhecimento sobre o autismo na sociedade à nível geral, é fundamental para atingir a meta final: a "sociedade favorável ao autismo".
Esse artigo é um chamado para que pessoas-chave, como professores, médicos e administradores envolvam-se com o autismo e mudem suas atitudes. Pessoas com autismo de todas as idades precisam de sua ajuda para construir uma sociedade favorável ao autismo.
Fica colocado aqui um desafio que tem sido trazido por várias vozes dentro da pediatria brasileira: o de incorporar definitivamente na nossa prática diária a utilização de instrumento de triagem para autismo.
Vamos estender a conscientização para além do dia 02 de abril.Para todos os dias da nossa rotina profissional.
*O autor, médico pediatra, ex-vereador e ex-secretário municipal de Saúde de Dourados Eduardo Marcondes, escreve periodicamente para oBlog.

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