sexta-feira, 21 de junho de 2013

"O diabo é se aparecer um cadáver"

 
 
A onda não chegou ao ponto mais alto de inflexão. Episódios ainda acontecerão, em matéria de confronto. Pode levar semanas até que arrefeça o movimento de protesto da juventude. Por conta disso, seria imprescindível que as duas partes em conflito estabelecessem certas regras, senão de convivência, ao menos de beligerância contida.
Às autoridades cabe assegurar as liberdades públicas e garantir a propriedade pública e privada. Aos manifestantes, protestar sem depredações. Mantido esse mínimo de compreensão, ganharão todos. Rompida a linha tênue do respeito, tanto faz se por iniciativa de uns ou de outros, haverá que esperar o pior.
O experiente governador Negão de Lima, da Guanabara, nos idos de 1968, prenunciava “que o diabo é se aparecer um cadáver”. E apareceu, na pessoa do estudante Edison Luís, assassinado a tiro no restaurante do Calabouço por um agente policial. Depois foi realmente o diabo, culminando com o Ato Institucional número 5, de triste memória e que instalou a ditadura. O passado não se deu ao trabalho de passar para ser esquecido.
Como regra, experiências anteriores não nos dirão o que fazer, mas, pelo contrário, o que evitar. Nesses entreveros sempre surgem os radicais, os empedernidos e os mal-intencionados. Pode ser um soldado que tem contas a ajustar com a humanidade, pode ser um jovem sem conhecer as razões do protesto, empenhado apenas em devolver à sociedade organizada aquilo que dela não recebeu. Tanto faz, pois o risco envolve tanto os manifestantes quanto as autoridades. Depois, ninguém segura.
Os protestos configuram um estado de espírito que domina hoje não só a juventude, tão insatisfeita com os horizontes a ela oferecidos quanto disposta à aventura de tornar-se participante de uma rebeldia de origem variada. A repressão faz parte do espírito policial em todos os tempos e em todas as regiões. A mistura é explosiva caso não prevaleçam o bom senso e a razão, de parte a parte.
Mais do que buscar culpados e responsáveis, importa tentar limitar os episódios ainda inconclusos ao mínimo de prejuízo possível. Tirar a tropa de choque das ruas e proibir o uso de balas de borracha e gás lacrimogêneo sobre a multidão torna-se tão essencial quanto impedir a ação de vândalos sem outros compromissos do que com sua própria animalidade.
 
 
 

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