O padre Crispim Guimarães, pároco da catedral de Dourados, se manifestou, em nome da Igreja Católica e com exclusividade para o titular do blog, sobre o tresloucado e grosseiro pronunciamento feito na Câmara Municipal pelo presidente do Sindicato Rural de Dourados Marisvaldo Zeuli, no qual acusou a igreja Católica, através do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), de ser culpada pelos conflitos agrários e o bispo Dom Redovino Rizzardo de também ser responsável pelos conflitos porque se omite na questão. Zeulli ameaçou também promover uma campanha para que os fiéis abandonem a igreja católica.
Padre Crispim falou também sobre as acusações do deputado Zé Teixeira de que a igreja católica está usando dinheiro dos dízimos para financiar o CIMI e de que a CNBB quer acabar com o estado laico (separação Estado-Igreja).
Zeuli
Sobre o discurso do presidente do Sindicato Rural, padre Crispim considerou “lamentável que o mesmo deseje que o bispo e a igreja como um todo se ponha de joelhos diante de algumas pessoas”.E fez uma indagação: “Não seria o caso de todos se colocassem de joelhos diante de Jesus, que diz: “Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da lei, vós não entrareis no reino dos céus, conforme cita a bíblia em Mateus 5:20?
“Além das acusações levianas e infundadas, o fato de ameaçar fazer uma campanha para que os fiéis da igreja católica a abandonem revela que: será que estão querendo paz? Qual o conhecimento que o presidente do Sindicato Rural tem em relação à ligação religiosa dos indígenas? a maioria expressiva é evangélica ou de religião tradicional indígena.Como a igreja católica teria tanto poder para influenciar essas comunidades a tal ponto de provocarem invasões e mortes?se a igreja católica fosse tão influente não teria sido aprovado o aborto em casos específicos, não haveria corrupção, o casamento válido no país seria apenas o hetero-monogâmico.Se esses princípios básicos não são respeitados na sua totalidade pelos não-indígenas, porquê exatamente os indígenas iriam seguir ordens da igreja católica?", questionou.
“É importante que pronunciamentos dessa natureza sirvam para uma reflexão sobre qual o interesse em colocar a igreja católica como culpada por esse grande problema, que é doloroso para todos”, ponderou padre Crispim. “Por tudo que se tem dito dá-se a impressão de que nós, padres, estamos diuturnamente nas aldeias incitando os indígenas a invadirem terras, como se todos fossem católicos”, opinou o representante da igreja católica.
Dom Redovino
“Eu sou testemunha de diálogo com o então presidente Lula, por ocasião de sua visita à UFGD, onde o bispo diocesano pediu ao Governo Federal que trabalhasse pela indenização aos proprietários de terras desapropriadas e que não se fizesse injustiça com aqueles que legalmente compraram suas terras.Portanto, se tem alguém interessado que haja justiça é a igreja”, relatou padre Crispim, desmentindo afirmação ofensiva feita por Zeuli ( "Don Redovino fala uma coisa, fala outra e não fala nada").
“No entanto, fazemos ressalvas na questão da posse das terras.Não basta as demarcações acontecerem.Dada a terra, é preciso de políticas públicas que tornem os indigenas independentes de cestas básicas e de todas as supostas caridades que os fazem atrelados a governos e a organizações”, assinalou padre Crispim.
Zé Teixeira
Sobre as declarações do deputado Zé Teixeira em entrevista ao jornal O Progresso, padre Crispim ponderou inicialmente sobre o conceito de “Estado Laico”. “Estado laico é o Estado onde todos individualmente e as instituições podem opinar sobre as mais variadas realidades”, afirmou o padre. “Se o Estado brasileiro fosse teocrático só uma religião opinaria.Se fosse ateu aí sim o deputado teria razão: nenhuma religião poderia falar sobre nada”, ensinou padre Crispim, que é teólogo, filósofo, acadêmico de Letras, pós graduado em Comunicação Social e em Metodologia do Ensino Superior,counseling em psicopedagogia da formação e mestrando em psicologia.
“Ao acusar a igreja de estar financiando o CIMI com o dizimo dos fiéis de Dourados é preciso que o deputado apresente provas.Todos os dizimistas ouvem no início de cada mês uma exposição verbal dos balancetes e depois esses balancetes ficam à disposição nos murais das igrejas. Todo dizimista tem o direito de requerer os balancetes na íntegra para verificar a aplicação da sua contribuição.Somos muito transparentes com os recursos devolvidos pelos dizimistas, que são aplicados nas pastorais que visitam os idosos, na pastoral da criança, nas visitas aos enfermos nos hospitais, em mais de 100 projetos de geração de renda, no sustento das casas de recuperação de dependentes químicos, na manutenção das igrejas para que todos possam celebrar com dignidade a eucaristia e também participar de formações”, enumerou padre Crispim.
Sobre a afirmação de Zé Teixeira de que “a palavra final deve ser da justiça”, sugerindo a interferência da CNBB nas decisões do judiciário, padre Crispim afirmou concordar com o deputado. “No entanto, é importante lembrar o principio da isonomia: se todos podem ter direito à defesa, que de fato esse principio valha para todas as partes envolvidas”, defendeu o padre.
Padre Crispim afirmou que “em hipótese alguma gostaria de ver os proprietários prejudicados, mesmo porque não se pode fazer justiça provocando outra injustiça.Isso seria prorrogar o conflito para daqui a algumas décadas, sendo que os proprietários injustiçados, assim como os índios hoje, irão requerer seus direitos negados”. “Se somos católicos praticantes, sentemos todos na mesa do diálogo”, conclamou padre Crispim, em alusão à afirmação de Zé Teixeira de que é "católico praticante".
Nota do Blog
O pronunciamento de Zeuli, deselegante, grosseiro e mentiroso no que se refere a Dom Redovino e injusto com a igreja católica, que tem um histórico de engajamento, sobretudo através das Campanhas da Fraternidade, em todas as lutas envolvendo os mais variados temas que envolvem a sociedade, e as declarações levianas do deputado sobre o uso do dízimo refletem o pensamento da atrasada bancada ruralista, considerada o mais poderoso grupo de interesse no Parlamento brasileiro e que vale-se de alianças com outras agremiações no Congresso para promover uma agenda que inclui, entre suas principais bandeiras, o perdão (calote) das dívidas de agricultores, a expansão de terras cultiváveis no País através do desmatamento e a oposição à ampliação de terras indígenas.Não a toa, é conhecida em todo o Brasil como "a bancada do atraso", eleita na maioria dos casos à força do poder econômico.Foram desmascarados pelo representante da instituição que atacaram.

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