Hoje vou usar este generoso espaço para tratar de um tema delicado e que, a meu ver, não deve ficar restrito à psiquiatria ou à psicologia e que merece um abordagem especial (inclusive com inovações na grade curricular dos cursos atuais) pela pediatria: a saúde mental infantil.Aliás, sou árduo defensor da multidisciplinariedade, assim como a maioria dos colegas médicos.Juntos, somos mais fortes, figurativamente falando, para a solutividade das patologias, a maioria interrelacionada.
É recente a inclusão da criança como objeto de preocupação na saúde mental. E um dos principais fatos que contribuiu para essa mudança foi a Reforma Psiquiátrica e a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente como detentor de direitos e deveres perante o Estado brasileiro. A OMS prevê até o fim da próxima década uma incidência mundial de 50% de transtornos de ordem mental na população mundial (em todas as faixas etárias), sejam eles classificados como leves ou que tragam prejuízo social e/ou econômico ao paciente.A precocidade desse diagnóstico é fundamental para a melhora da qualidade de vida desses pacientes.
A incidência de transtorno mental na infância varia de 10% a 20% e os mais comuns são transtornos invasivos do comportamento, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, transtorno de ansiedade de separação, transtorno de ansiedade generalizada, depressão, esquizofrenia, anorexia, bulimia, uso de álcool, de tabaco e de drogas ilícitas.
Em função disso é essencial a atuação do pediatra, estando atento e preparado para atuar no diagnóstico do transtorno mental. Se esse diagnóstico for feito de maneira precoce, muito pode ser feito para a melhoria da qualidade de vida dessas crianças e, em casos de doenças mentais de origem genética, o encaminhamento desses pais para o aconselhamento genético.
É o pediatra quem conhece e acompanha as especificidades próprias de cada etapa do desenvolvimento em que a criança se insere.
Esse desenvolvimento pode ser entendido como a capacidade do ser humano em adquirir condições para realizar atividades cada vez mais elaboradas. A consulta pediátrica é composta por diversas fases, ou seja, desde a entrada do paciente com seus familiares na sala do consultório até a observação do modo como ele brinca, demonstra afeto e o seu humor. Este primeiro contato requer do profissional habilidade e sensibilidade a fim de estabelecer uma boa relação médico-paciente, pois isso determinará o sucesso ou o fracasso no diagnóstico precoce dos distúrbios mentais.
A realização de anamnese e exame físico da criança e do adolescente requer paciência, tolerância e conhecimentos teóricos a respeito da capacidade de realizar de cada idade em termos do seu desenvolvimento mental.
E é este olhar do pediatra que se volta na observação para a obtenção das informações através da própria criança ou adolescente.
A percepção dos transtornos mentais em crianças e adolescentes é tão desafiadora que vai além da identificação de transtornos mentais nos adultos. Isso de deve ao fato de a criança estar em um período de desenvolvimento no qual a capacidade de mostrar o desconforto psíquico e os problemas emocionais é limitada, daí que essas condições acabam sendo externalizadas por meio de um comportamento que foge dos padrões. O olhar competente para com essa faixa etária é uma demanda na sociedade, e o pediatra é importante nessa avaliação cuidadosa e abrangente.
O trabalho do pediatra passa pela necessidade de adequar seu olhar para a identificação precoce dos problemas mentais e valorizar as queixas dos pacientes, da família, da creche, da escola. Em contrapartida, é notório que muitos pais usualmente não levam ao consultório pediátrico queixas relacionadas com essa área por não identificarem como uma questão médica.
Um dos mais importantes problemas na infância é de ordem mental, estimando-se prevalência de 10% a 20%. Muitas de suas causas são mutáveis, pois os fatores ambientais são fonte dos distúrbios emocionais e influenciam muito mais do que os fatores de risco genéticos, intrínsecos do indivíduo. Então esse olhar na consulta pediátrica deve ser voltado para o atendimento e à promoção da saúde infantil e juvenil.
E por que o pediatra? Porque é ele quem tem todo o "filme" da vida da criança, sabendo detectar mudanças não adequadas para aquela faixa etária.
O início desses distúrbios provém na maioria das vezes de falhas no desenvolvimento dessa criança e possuem multicausalidades. Essas várias causas podem ser de ordem cognitiva, emocional, afetiva, negligência, abuso físico ou psicológico, maus-tratos( tema tratado em nosso artigo anterior) , falta ou inadequação de estímulo. Essas condições podem acompanhar o indivíduo por toda a vida, porém muitas vezes se manifestam somente na vida adulta.
As intervenções do pediatra exercem maior impacto quando feitas até o terceiro ano de vida, e uma das melhores intervenções é o incentivo ao aleitamento materno. Isso se deve ao fato de que as aquisições neurológicas e mentais nessa época do desenvolvimento humano acontecem de forma muito intensa e rápida.
Os pediatras conseguem esse acompanhamento do desenvolvimento mental, pois realizam consultas periódicas e avaliam a construção dos marcos do desenvolvimento, do crescimento pôndero-estatural e das conquistas de habilidades cognitivas e comportamentais.
Esse é o instrumento de avaliação para o profissional perceber quando uma criança possui problemas do desenvolvimento. Em função disso é essencial sua atuação, estando atento e preparado para atuar no diagnóstico do transtorno mental. Se esse diagnóstico for feito de maneira precoce, muito pode ser feito para a melhoria da qualidade de vida dessas crianças, notadamente no que se refere à saúde mental.

0 comentários:
Postar um comentário