terça-feira, 3 de setembro de 2013

A mídia, a alimentação das crianças e a escola


Temos enfatizado a necessidade da multidisciplinariedade como instrumento de prevenção a doenças, notadamente no que se refere às crianças.Nesse quesito, conforme afirmei em artigo anterior, a escola pode ser uma aliada fundamental para disseminação, desde cedo, de práticas saudáveis. Hoje vamos falar sobre uma preocupação de nove entre dez mães: a influência da mídia e a alimentação adequada para os pequenos. 
O público infantil é o mais vulnerável aos apelos promocionais. Entre as diversas formas de influência sobre as práticas alimentares provenientes do meio, a mídia, nas suas múltiplas formas, está entre aquelas que mais rapidamente estão assumindo papel central na socialização de crianças e jovens. Concomitantemente ao crescimento na variedade e na forma de acesso da mídia, há um crescimento na promoção de alimentos industrializados e bebidas prontas nos supermercados, influenciando negativamente a dieta e os estado de saúde das crianças. 
Publicidade e propaganda são técnicas largamente usadas pelas empresas para encorajar o consumo de seus produtos. As indústrias investem pesadamente divulgando fast-food ricos em calorias, bebidas carbonatadas, cereais matinais açucarados e snacks, alimentos os quais tendem a ser ricos em gorduras, açúcar e sal, bem como pobre em nutrientes. Dadas as crescentes prevalências globais de obesidade e doenças crônicas não transmissíveis, muitos especialistas têm sugerido que a propaganda e a publicidade de tais alimentos contribuem para um ambiente “obesogênico” que torna as escolhas saudáveis mais difíceis, especialmente para crianças.Segundo a revisão sistemática elaborada pelo Comitê de Publicidade de Alimentos e Dieta de Crianças e Jovens do Instituto de Medicina dos Estados Unidos, existem fortes evidências de que a propaganda televisiva influencia as preferências, os pedidos de compra e as opiniões sobre alimentos e bebidas por parte das crianças entre dois e onze anos. Há também evidências que o referido recurso, num prazo curto de tempo, influencia o consumo semanal e até diário das crianças, levando-as a preferir e pedir alimentos e bebidas com alto teor calórico e baixo teor nutritivo.Além disso, esta revisão também encontrou fortes evidências de que há associação estatística entre a exposição à propaganda televisiva e o sobrepeso entre as crianças e adolescentes. 
É nesse contexto que entra a Escola. Uma alimentação saudável é essencial em todas as fases de nossa vida, mas em cada uma delas a alimentação tem uma importância diferente. Quando somos crianças, nossa alimentação é voltada para o crescimento de nossos ossos, pele, músculos e órgãos. Nessa fase brincamos, pulamos, aprendemos a ler e a escrever, entre várias outras coisas, por isso uma alimentação balanceada é imprescindível, pois precisamos de energia necessária para todas essas atividades. É também nessa época da vida que formamos nossos hábitos alimentares, ou seja, que “aprendemos” a gostar ou não de certos alimentos. A escola tem extrema importância na formação dos hábitos alimentares de seus alunos, e a partir de aulas de culinária o professor pode apresentar vários alimentos às crianças. Com receitas que envolvam alimentos saudáveis, professores e alunos podem provar vários pratos que eles mesmos prepararam. Dessa forma, além de despertar o espírito de equipe nas crianças, ainda desperta sua curiosidade para provar alimentos novos. 
Outra forma de despertar a atenção das crianças para uma alimentação saudável é estudando os rótulos dos alimentos. A partir dos rótulos podemos saber o que determinado alimento tem como ingrediente, e se ele realmente é saudável ou não. Por exemplo, peça a seus alunos que levem rótulos de alimentos variados para a sala de aula, e a partir de um rótulo, como o de um biscoito de morango, peça que eles pontuem quantos alimentos com sabor “morango” eles conhecem. Em seguida faça alguns questionamentos, como: “Todos esses alimentos foram feitos com morango?”; “Será que a cor ou o sabor desses alimentos foram feitos em laboratórios químicos?”; “Se eu consumir esse produto, o que estarei consumindo?”; “Esse alimento é importante para o desenvolvimento do meu corpo?”; “Esse alimento é saudável?”. Esses e outros questionamentos podem ser feitos para todos os rótulos, e a partir das respostas dadas pelas crianças o professor pode falar sobre a importância de se consumir alimentos naturais, pois eles possuem inúmeros nutrientes necessários ao bom funcionamento do organismo. 
Procurando despertar seus alunos para a alimentação saudável, a escola pode desenvolver um projeto no qual os professores de todas as áreas podem trabalhar. Por exemplo: na História, os professores podem pedir a seus alunos que pesquisem sobre os hábitos alimentares ao longo dos séculos, e o que mudou; qual o país de origem de cada fruta e hortaliça; qual a influência da cultura na produção e consumo de certos alimentos etc. No português, os professores podem pedir que os alunos confeccionem cartazes sobre alimentação saudável; redações enfatizando a importância de uma dieta alimentar balanceada e os problemas causados pela má alimentação; poemas e poesias sobre alimentação; pesquisa sobre os hábitos alimentares da comunidade em que vivem, entre outras atividades.Na matemática, o professor pode trabalhar com seus alunos as porcentagens dos alimentos mais consumidos na escola ou comunidade; como medir os ingredientes de uma receita e depois prepará-la na escola; fazer uma pesquisa sobre os índices de subnutrição e obesidade no Brasil, e confeccionar gráficos que representem esses índices etc. Na geografia, o professor pode trabalhar sobre quais fatores influenciam no crescimento e desenvolvimento de frutas e hortaliças; como as frutas e hortaliças produzidas em uma região são transportadas para outras regiões; qual a influência do clima e do solo na produção das hortaliças e frutas etc. 
Encerro este artigo conclamando os professores a aprofundar a discussão sobre o papel da educação alimentar e nutricional dentro do contexto atual, em que a mídia exerce forças inegáveis.As tecnologias da informação e comunicação são de extremas relevâncias na garantia do direito ao acesso à informação. No entanto, tais tecnologias não podem substituir a educação, que tem no diálogo um dos elementos centrais. Esse diálogo, mesmo intermediado pelas tecnologias, é que oferece sentido para as ações educativas e para o processo de mudanças das práticas alimentares das nossas crianças.


*O autor, médico pediatra Eduardo Marcondes, é ex-secretário municipal de Saúde, Ex-vereador, chefia o setor de Pediatria do Hospital da Vida e é colunista do Blog

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