O médico Eduardo Marcondes, que atuou como professor das primeiras turmas do curso de Medicina da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), afirmou ontem considerar o aumento do tempo de permanência dos acadêmicos de 6 para 8 anos, anunciado pelo Governo Federal como parte do programa Mais Médicos, uma medida “inócua”. “Temos que convir que se o aluno não aprendeu em seis anos não será acrescentando mais dois anos que ele aprenderá”, ponderou o ex-professor, assinalando que pela própria característica da profissão (“lidar com vidas”, observou) o curso de medicina é um dos mais exigentes no que tange à grade curricular e também o de maior duração no sistema de ensino superior do Brasil. “O Governo, tardiamente, diga-se de passagem, acerta no diagnóstico, mas erra na prescrição do remédio”, opinou, referindo-se à necessidade de medidas que garantam a presença de médicos nas localidades mais remotas do Brasil e à alternativa proposta para suprir essa lacuna.
“Estive nas duas extremidades da carreira, como aluno e como professor, e posso afirmar sem receio que seis anos é suficiente para que o aluno adquira noções teóricas e práticas que o habilitem a exercê-la.O curso é em tempo integral (manhã e tarde). As noites ficam reservadas, a partir do quarto ano, para atividades extracurriculares como plantões e estágios em emergências e CTIs, geralmente cumpridos na rede pública”, afirmou Marcondes, lembrando também a necessidade legal de formação complementar em cursos de pós-graduação específicos para médicos, chamados de Residência Médica. “O tempo de residência varia conforme especialidade escolhida mas a formação varia de 2 a 6 anos após a graduação de 6 anos. Ou seja, o aluno pode ter que estudar 12 anos para exercer uma especialidade médica, como é o caso da cirurgia cardiovascular”, acrescentou o médico, que optou pela pediatria.
Formato atual
Formato atual
“No formato atual, os primeiros dois anos são apenas no chamado Ciclo Básico, no qual se estuda a base da medicina: anatomia, fisiologia, farmacologia, bioquímica, biofísica, imunologia, microbiologia, patologia, histologia, embriologia, biologia celular e genética, com atividades de laboratório com uso de microscópio ou experimentos químicos. Após o ciclo básico tem início o ciclo profissional, que é realizado em hospitais. Lá o aluno recebe noções de semiologia (exame físico e anamnese, que é o questionário básico de toda consulta), especialidades clínicas (cardiologia, pneumologia, hematologia, endocrinologia e outras) e especialidades cirúrgicas. Os dois últimos anos são do estágio curricular obrigatório denominado Internato. Ele é dividido nas 5 grandes áreas: Clínica Médica, Clínica Cirúrgica, Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia e Saúde Coletiva”, relacionou, destacando que esse estágio é todo prático, possibilitando ao aluno vivenciar o dia a dia de um profissional de cada área.
“Todo esse processo, que é exaustivo e que exige dedicação integral do seu tempo, da sua vida, durante seis anos, assegura ao aluno as habilidades técnicas e emocionais necessárias para, se aprovado em todas as etapas, receber o diploma, obter seu registro no Conselho Regional de Medicina (CRM) e exercer a profissão”, garante o médico, que atua na rede pública e privada há quase 40 anos.
Medida tecnocrata
“Vejo a proposta de aumentar o período do curso como uma medida tecnocrata, que mira a árvore para esconder a floresta, que é a falta de estrutura na rede pública para atuarmos em áreas mais remotas e que realmente causa o êxodo dos colegas para regiões onde não se sintam impotente diante do dilema diário de salvar vidas ou amenizar sofrimentos”, opinou Marcondes, que conhece de perto a estrutura pública de saúde: foi secretário municipal de Saúde por duas gestões e é responsável pelo setor de pediatria do Hospital da vida.
Como alternativa para a falta de médicos nas localidades remotas, o médico defende “menos mídia” e mais ação: “que seja mantido o período de 6 anos de duração do curso e criada uma lei que determine que após formados os alunos que estudaram em universidades públicas ou beneficiários de programas como o ProUni, que isenta universidades particulares de impostos, retribuam à sociedade os recursos públicos investidos em sua formação atuando por dois anos, com remuneração de mercado, nas localidades onde há falta de profissionais e que o problema da falta de estrutura seja resolvido através da fixação de um percentual fixo do Orçamento da União para ser aplicado em saúde, que inclusive é objeto de um projeto de iniciativa popular que está recolhendo assinaturas em todo o país”.O projeto a que se refere o médico é denominado “Brasil mais 10” ( em alusão ao percentual de 10% do Orçamento) e a coleta de assinaturas é coordenada pelo mesmo movimento que colheu as assinaturas para o projeto que resultou na Lei da Ficha Limpa.

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