Vendeu o gado e arrendou os campos.
Reservou-se apenas as casas da Sede,
o potreiro da frente e o antigo pomar
onde a avó plantara, mangueiras e jabuticabas.
A mãe plantara laranjeiras e mexericas.
A mulher plantara flamboyants e acerolas.
As crianças plantaram sonhos e mudas de aroeiras
presenteadas na escola no dia da árvore.
Comprou apartamento na Capital.
Com sacadas amplas e vista panorâmica,
subiu do chão onde plantava botas
para os carpetes de sala de um décimo andar.
A tropa mansa e manadas de éguas,
seleção de anos da família , gerações de
tobianos, malacaras, baios, gateados,
rosilhos, lobunos, zebrunos, pretos,
douradilhos, ancas pintadas , tordilhos e alazões
embarcou pela primeira vez em caminhões
rumos a fazendas e destinos desconhecidos.
A vacada mansa de tambo, leiteira com genealogia
franqueiras e caracus de grandes guampas,
nelorandas alvi-pretas de tetas túrgidas
foi compradas por vizinhos,
conhecedores da mansidão e procedência láctea
que enchia baldes sem espuma
ainda que apartadas no cair da tarde,e
menos encantados com a panacéia canavieira.
Chegaram os “ paulistas” de longe e seus tratores,
seus arados de disco, suas grades,
seus caminhões, suas colheitadeiras.
Seus desejos quase despudorados pelo dinheiro.
As invernadas e campinas, puros guavirais,
goiabais nativos,araçazais, marmeleiros e cajus do campo
- florões de campo para a gadaria ibérico-indiana -
foram lavradas da vertente ao cimo.
E sua raízes conheceram o poder do sol.
Os plantadores semearam- lhes, ágeis,
os nós de cana de açúcar do primeiro corte.
Posto abaixo os pequis e jatobás campeiros
a cuja sombra se abrigava o gado
da viva força do sol, pelos verões.
Só uma aroeira ficou na parte mais alta.
Sentinela de galhos que acenam
como a chamar de volta à sesmaria
o patrão que se foi a outros rumos,
deixando a fazenda - como quem deserta
de um campo de batalha conquistado.
E um praieiro ficou a reparar as casas.
Desbotada assombração arrastando alpargatas
pelo arvoredo em flor, pelos pátios desertos.
Fazendo fogo pelas madrugadas
no galpão que restou abandonado
da chama viva dos peões de ontem,
um a um despachados.
A lavoura de cana
não reserva lugar para os campeiros.
Pobre praieiro! A matear solito,
sem outro companheiro que não o silêncio
que é irmão gêmeo dos que vivem sós.
Nem um berro de touro nos rodeios!
Nem um relincho de potro clarinando
no campo onde as tropilhas retouçavam!
Os galos madrugadores, seu canto alegre -
emudeceram, como por respeito
à fazenda velha que ficou plantada
como um homem finado que enterrassem
tal um palanque de pé, na vertical,
em meio ao imenso canavial.
Outros ruídos agora cincerreiam os ares
que era um manto de azul animado por asas
de garças, quero-queros , piriritas , pombas rolas e anús:
- o ronco dos tratores e das máquinas,
o sapucái onomatopaíco dos geradores
das bombas a beber águas do rio.
Estranhas vozes aos ouvidos da Querência
que adormecia nos bordões chorados
de um violão ponteando “ Sonos Guaranis”
de uma gaita ressoando " Vila Guilhermina"
de uma harpa recordando "Guirá Campana" ...
Longe dali, no apartamento alto,
nos altos da Avenida Afonso Pena,
na veia cárdia dos “ campos grandes “,
um homem pensa,
um homem lembra,
Um homem dói-se.
Olha da sacada os campos além, azul esverdecidos.
Na barra do horizonte de sua querência,
onde a alma ficou-lhe, como um pala esquecido,
puitã de seda , sobre um tronco morto ,
de uma velha bocaiúva tombada.
Nem a conta bancária lhe consola,
esta que é gorda dos lucros do arrendamentos
mas leva marca e sinal de lavouras alheias
que mãos estranhas plantaram em suas terras
- campos de pai,
campos de avós,
campos tomados dos terenas e kaiowás,
seus, agora mas não mais seus....
Agora zanza pelas ruas loucas
perdido nelas e perdido em si.
No Sindicato Rural fala com outros
que como ele abandonaram os potros
pelos cavalos-motor dos automóveis.
O tereré corre e a conversa pára.
E nesta pausa lhes dói como o espinho da japecanga
o haver trocado a dura-doce vida antiga
por um contrato com timbres de cartório
e entrelinhas de “ amargo de quina “ no seu texto.
Exilados da “hacienda” , se compreendem.
O tereré pára e a conversa anda.
“Recuerdos” chegam sem pedir “permisso” :
- vestem-lhes botas, calçam-lhes esporas,
abrem-lhes várzeas para o vôo das garças,
a tropa encilhada masca o freio e aguarda
rodilhas largas para o laço doze braças,
pialos de touro para um tombo feio.
É o que lhes resta dos arrendamentos:
- um rodeio de duros pensamentos
e uma conta bancária que lhes paga
a prisão alta em seus apartamentos.
A cana,
A cana de açúcar...
a cana de doce amargor...
E o cheiro distante dos rodeios extintos,
o esturro dos touros chegando aos curralões,
a cor da carne recém manteada no varal,
a cabritada brincando nos cupinzeiros,
o sapucái da indiada em dia de marcação,
o tropel dos potros jogando carreira,
a criançada quebrando castanhas de bacuri no cocho.
As mulheres acendendo o tatacuá pras chipas de Finados,
o caburé de mandioca amarela no prato louçado
e o chá de cocido de erva crioula ,
tomado no alpendre da varanda,
em companhia de seus peões...
As crianças de mãos postas a pedirem bençãos
e um solene “ Nhande Jara os abençoe ’’ - como resposta !
Um século de fazendas nas lavouras
e uma risada tarová
dos talhões de cana que agora imperam
na terra que irmanou campeiro e bois.
Quando se tomba a última resistência
da cultura da carne e do couro,
em forma de um cemitério de campanha.
Marca viva a nominar os mortos,
singelo cercado de aroeira em meio a camparia ,
onde cruzes , coroas , cântaros e carneiras,
mortalhas de branco linho e castiçais de barro,
são engolidas pelos vorazes discos
de uma impiedosa grade aradora,
a revolver a terra e enterrar lembranças
para o nascimento de um canavial,
soterrando para o sempre a cultura primitiva
de uma terra baguala chamada Pantanal.


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