terça-feira, 22 de outubro de 2013

Dia do Médico: um desabafo, propostas e um reconhecimento



No quadro atual das políticas públicas do Brasil, é inegável que o “nó górdio” é a Saúde. Na sexta-feira, 18, foi celebrado em todo o país o Dia do Médico. Aproveito esse espaço e essa data simbólica para, em nome de toda a nossa categoria (obstetras, cirurgiões, psiquiatras, clínicos gerais, oncologistas, infectologistas e todas as demais especialidades) fazer um desabafo. 
Quando o estudante de medicina se torna médico de fato, com o juramento a Hipócrates, pesquisador grego do campo da saúde considerado "Pai da Medicina", ele começa a enfrentar diversos desafios do cotidiano para salvar vidas. O primeiro deles está na falta de estrutura da rede pública de saúde, pois, nesse caso, o profissional fará o que está ao alcance dele para iniciar e acompanhar o tratamento de um paciente, se deparando então com o dilema quase dantesco: não tem os recursos matérias/estruturais necessários à mão para fazê-lo. 
O que estão fazendo com nossa profissão (que já descrevi aqui como um processo de “satanização) não tem adjetivos. Procuram nos culpar por todos os desleixos de governos que deram pouca ou nenhuma atenção à saúde. Agora estamos em perigo, ainda mais se não conseguirmos dosar as nossas atitudes. Precisamos nos concentrar em nossos direitos para buscar de forma racional as soluções para reconquistar nossa dignidade e, principalmente, o respeito da população. Não será exercendo o direito de greve ou realizando protestos isolados que vamos readquirir a credibilidade pública. Não podemos aceitar que essas imposições sejam definitivas. Não será agora, com decretos presidenciais e com referendos dos parlamentares, que nos intimidarão a desistir de querer a nossa profissão como a enunciada por Hipócrates: em defesa do ser humano e nos constituindo como uma das mais nobres profissões. Além disso, não será com agressões de qualquer natureza aos médicos de outros países que seremos respeitados e valorizados. Que culpa eles têm? Nenhuma! Se estão preparados ou não, e se estão sendo admitidos sem respeitar provas como o Revalida, não lhes cabe culpa. É imposição governamental. Nossas entidades representativas tentaram evitar essas discrepâncias. Quanto à essa questão legal, cabe-nos confiar no judiciário. Não podemos esquecer que o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Ministério do Trabaho já se debruçam sobre a legalidade do programa (Mais Médicos) instituído à fórceps pelo Ministério da Saúde como panaceia para desatar o “nó górdio” de que falei no início deste artigo. 
Dizer que não haveria falta de profissionais e que a saúde chegaria aos mais distintos rincões se lá houvesse estrutura para atendimento decente, com segurança, é uma afirmação de conhecimento nacional. Os médicos brasileiros não podem ficar imóveis e precisam propor soluções amplas e profundas, notadamente no que tange à falta de estrutura para o atendimento. Para além dessa questão crônica, verificada inclusive nas grandes cidades, precisamos pensar urgentemente na criação efetiva da carreira de estado para a Medicina. Ela pode seguir os mesmos moldes adotados para juízes e promotores. Médicos em início de carreira seriam encaminhados para regiões mais distantes e na medida em que forem evoluindo profissionalmente, se aproximariam dos centros maiores. Tenho certeza que os jovens médicos ficariam encantados com a possibilidade de promoção pelo mérito e pela experiência adquirida. Isso faria, também, com que eles buscassem constantemente o aprimoramento técnico. 
Cabe a nós médicos o dever de escutar fielmente os pacientes, dando a eles o tempo necessário para nos induzir ao diagnóstico e prescrever os exames inerentes para cumprir o tal objetivo. Nós temos que respeitar as conquistas tecnológicas, utilizando elas para o bem do paciente. Nós prescrevemos medicamentos baseados em evidências científicas. Nós acompanhamos, também, os pacientes nas horas de tristeza, dificuldades e sofrimentos. Infelizmente, em alguns casos temos que conceder à família o atestado de óbito. Finalizo me congratulando com meus colegas pela data e deixando para reflexão, pelos leitores e leitoras, um ditado popular: culpar os médicos pela crise nacional por que atravessa a Saúde é culpar o termômetro pela febre.Vamos juntos, profissionais, governos municiais , estaduais e Federal, lutarmos para que tenhamos uma saúde pública de qualidade.

*O autor, Eduardo Marcondes, é pediatra, ex-secretário municipal de Saúde e ex-presidente da Associação Médica de Dourados (AMD)

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