sexta-feira, 21 de junho de 2013

"O diabo é se aparecer um cadáver"

 
 
A onda não chegou ao ponto mais alto de inflexão. Episódios ainda acontecerão, em matéria de confronto. Pode levar semanas até que arrefeça o movimento de protesto da juventude. Por conta disso, seria imprescindível que as duas partes em conflito estabelecessem certas regras, senão de convivência, ao menos de beligerância contida.
Às autoridades cabe assegurar as liberdades públicas e garantir a propriedade pública e privada. Aos manifestantes, protestar sem depredações. Mantido esse mínimo de compreensão, ganharão todos. Rompida a linha tênue do respeito, tanto faz se por iniciativa de uns ou de outros, haverá que esperar o pior.
O experiente governador Negão de Lima, da Guanabara, nos idos de 1968, prenunciava “que o diabo é se aparecer um cadáver”. E apareceu, na pessoa do estudante Edison Luís, assassinado a tiro no restaurante do Calabouço por um agente policial. Depois foi realmente o diabo, culminando com o Ato Institucional número 5, de triste memória e que instalou a ditadura. O passado não se deu ao trabalho de passar para ser esquecido.
Como regra, experiências anteriores não nos dirão o que fazer, mas, pelo contrário, o que evitar. Nesses entreveros sempre surgem os radicais, os empedernidos e os mal-intencionados. Pode ser um soldado que tem contas a ajustar com a humanidade, pode ser um jovem sem conhecer as razões do protesto, empenhado apenas em devolver à sociedade organizada aquilo que dela não recebeu. Tanto faz, pois o risco envolve tanto os manifestantes quanto as autoridades. Depois, ninguém segura.
Os protestos configuram um estado de espírito que domina hoje não só a juventude, tão insatisfeita com os horizontes a ela oferecidos quanto disposta à aventura de tornar-se participante de uma rebeldia de origem variada. A repressão faz parte do espírito policial em todos os tempos e em todas as regiões. A mistura é explosiva caso não prevaleçam o bom senso e a razão, de parte a parte.
Mais do que buscar culpados e responsáveis, importa tentar limitar os episódios ainda inconclusos ao mínimo de prejuízo possível. Tirar a tropa de choque das ruas e proibir o uso de balas de borracha e gás lacrimogêneo sobre a multidão torna-se tão essencial quanto impedir a ação de vândalos sem outros compromissos do que com sua própria animalidade.
 
 
 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Nota de Apoio ao “Movimento vem pra rua"

Já é notório que o ano de 2013 não se apagará da memória da sociedade brasileira.
Entre outros fatos, a série de manifestações que, a cada dia, mobiliza milhares de pessoas em cada canto do Brasil abre espaço para que as discussões políticas aflorem com mais ânimo, voltando a ser pauta nos encontros entre amigos e também onde a discussão nunca cessou, nas casas legislativas e executivas de todo pais.
Não poderia deixar de citar outra grande mobilização democrática, reconhecida como uma das maiores manifestações populares já ocorridas no Brasil, o movimento das “diretas já”. Muito embora o momento político fosse outro, e a ditadura ainda vigorasse, o manifesto ganhou as ruas e em menos de cinco anos os brasileiros votaram novamente para presidente.
Hoje, a população sai às ruas para protestar contra o aumento das passagens de ônibus, a PEC 37, os gastos com a Copa, a inflação, a má administração pública e as demandas por mudanças não param de crescer. Os movimentos e as reivindicações pacíficas continuarão, entretanto, façamos uma ressalva: devemos nos proteger dos que utilizam manifestações legítimas de massa para praticar atos de vandalismo e violência.
Os atos ocorridos na Câmara Municipal de Dourados na última terça-feira, dia 18, demonstram ser claramente possível manifestar-se com apego ao pacifismo sem se perder o foco e o objetivo. A partidarização do movimento só tende a enfraquecê-lo, e o que mais nos chama a atençäo é a participação das pessoas sem nenhuma ligação de cunho político.
A mobilização em nossa cidade tem tudo para ganhar as ruas de forma ordeira, ecoando seu ideário e levando à insatisfação aos que algo podem fazer para mitigá-la. Por fim, solidarizo-me com aqueles que, assim como eu, querem um Brasil melhor!
 
Assina
Vereador Alan Guedes (DEM)
 
Nota do blog: o titular do blog subscreve a lúcida nota do vereador Alan Guedes e, como ele, quer um Brasil melhor.

Protesto na Câmara: Analfabetismo político, reconhecimento e patriotismo equivocado

Sei e não me incomodo que o que será afirmado aqui pelo titular do blog “não pegará bem”, sugerirá que o blog abriu mão do exercício do controle social a que se dispôs, apontando com números e provas os erros pontuais da gestão lenta do prefeito Murilo e que não será dito em nenhum outro lugar de comunicação, virtual,impresso ou televisivo,mas os acadêmicos que lotaram o plenário da Câmara em sua grande maioria são, apesar da gritaria, meros analfabetos políticos bradando chavões.Raramente freqüentam as sessões, nada entendem de processo legislativo e administração pública e menos ainda sabiam por quê estavam ali.
Foram protestar contra a votação do aumento da tarifa, quando o que estava na pauta para votação era a prorrogação do contrato de concessão da exploração dos serviços de transporte coletivo pela empresa Medianeira, que expirou e que precisava ser votado e aprovado para que não haja a paralisação dos serviços até a realização de licitação para escolha de uma empresa com a mesma finalidade.A única licitação, diga-se de passagem e fazendo justiça ao prefeito Murilo, que terá critérios e exigências técnicas resultantes de um estudo feito por especialistas em engenharia de trânsito e transporte coletivo desde 1995, quando o então prefeito Humberto Teixeira, ao Deus dará, deu à então Viação Dourados, depois adquirida pela empresa Medianeira (PR), o direito de exploração do serviço.Sucedâneos e aleatórios aditamentos ao contrato inicial foram feitos pelos sucessores de Humberto, que foram Braz Melo (duas gestões), Laerte Tetila (duas gestões), Ari Artuzi e Délia Razuk.O máximo que esses prefeitos fizeram foi cobrar a melhoria dos serviços prestados, não tendo nenhum deles feito o que Murilo está fazendo agora:preparando, após um estudo feito por uma empresa de consultoria (não há, como cobra a sociedade há anos, na estrutura da prefeitura um engenheiro de trânsito) uma licitação com todos os itens a serem cumpridos por quem queira ganhar dinheiro obtendo a concessão.
Esses meninos e essas meninas não participaram da audiência pública que apresentou os resultados do trabalho feito pela empresa de consultoria e que mostrou que o transporte coletivo é obsoleto e “muito ruim”, segundo palavras do próprio prefeito durante reunião realizada ontem com os acadêmicos, que tiveram uma aula sobre como funciona a administração pública.Durante os trabalhos da consultoria,muitos deles inclusive foram entrevistados pelos funcionários da empresa contratada, que percorreram junto com os passageiros comuns todas as linhas cobertas pela atual (desde 1995) concessionária do serviço.Identificaram os “gargalos“ e um novo projeto subsidiará a licitação.
Como foram à Câmara para protestar contra o que não existia, “bateram panela“ contra a prorrogação do contrato com a Medianeira,inclusive vaiando uma própria colega que tentava explicar o equivoco e que não haveria a tal votação do aumento da tarifa, que por sua vez não pode acontecer, por determinação de lei municipal, sem a realização de uma audiência pública.
Oras, se não se prorroga um contrato vencido acaba a relação de prestação de serviços e hoje tanto estudantes como trabalhadores estariam sem transporte coletivo.
Por fim, essa história de vaiar todos os políticos, colocando no mesmo saco farinhhas oriundas de mandiocas de espécie diferente é de uma toupeiragem oceânica.Há maus políticos sim, assim como há maus acadêmicos que “torram” a grana enviada por seus país( parte expressiva é de outros estados) em cervejadas, inclusive no horário de aulas.
Colocar uma camiseta com a imagem de Chê Guevara, esse sim um revolucionário, é fácil.Difícil é disputar eleição, colocar terno e gravata e agir com honradez no exercício da política.Por incrível que pareça, há sim os bons políticos.Cito uma lista enorme deles, aqui,no Brasil e no mundo.
Outra besteira é a mistura de bandeiras, com a singela mas boba afirmação de que a luta é também por reforma agrária, fim do latifúndio e etc.Quando esses meninos e meninas passarem pelo movimento sindical aprenderão que quanto menor a pauta mais chances de negociação. E quando chegarem ao parlamento e à administração pública verão que não se legisla ou se governa por enquetes.Se fosse assim e a Câmara ouvisse seus “patrióticos” brados para que não fosse renovada a concessão para a atual empresa, até que seja preparado o edital técnico e cientifico da licitação para escolha da futura concessionária, eles teriam que seguir a pé do centro até o campus, os trabalhadores a pé para seus trabalhos e assim por diante.Chega de hipocrisia e de patriotismo equivocado.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Marcelo Mourão intermedia diálogo entre estudantes e legislativo e participa de passeata



O vereador Marcelo Mourão afirmou ser "muito importante" a participação da população nas sessões da Câmara, seja para acompanhar o trabalho dos vereadores seja para manifestações sobre assuntos específicos, como a realizada na sessão de terça-feira por acadêmicos de diversas instituições de ensino superior para expressar o descontentamento com o serviço de transporte coletivo.
“É muito válido a manifestação e participação, pois isso é democracia e a câmara é a caixa de ressonância das reivindicações da sociedade”, disse o vereador. Durante a sessão Marcelo Mourão intermediou conversas com os estudantes e o legislativo e também acompanhou o grupo durante a passeata que aconteceu após a sessão da Câmara. 
“Sempre digo que estou como vereador, e quero fazer valer esse mandato, por isso fiz questão de participar da passeata até a praça. É disso que o Brasil precisa: a participação direta dos  representantes do poder público nas suas lutas” disse o vereador. Um dos representantes dos estudantes, o acadêmico de Ciências Sociais da UFGD Universidade Federal da Grande Dourados) Leandro Camargo aproveitou o espaço cedido pela Câmara para utilizar a tribuna e expôr as reivindicações dos estudantes para reafirmar a realização do manifesto da próxima quinta-feira (20), às 18h na Praça Antônio João. “Não protestamos apenas pela tarifa, mas protestaremos pela saúde pública e por outras questões também”, disse. Denominado de ‘Vem pra rua Dourados", o manifesto já ganhou as redes sociais e pretende reunir milhares de pessoas no centro da cidade.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Funcionários denunciam, em documento, caos na estrutura de atendimento do PAM, onde falta até grampeador e suporte para soro

                              
                  
 
"Falta de estrutura adequada para o desempenho do trabalho, ou seja, falta de materiais diversos, que vão desde materiais básicos, como grampeador, grampos, passando pelas cadeiras velhas e quebradas, ventiladores que não funcionam; Bebedouro queimado a mais de 2 meses, sem nunca ter passado por manutenção dos filtros: os pacientes bebem água quente e sem qualidade; Cadeiras de rodas: ficamos uns meses sem cadeiras de rodas, que provavelmente foram roubadas, hoje temos somente 1 ou 2 que funcionam; portas caindo; macas velhas; falta de suporte de soro; falta de medicações; Bueiros internos que estão sempre cheios de água, o que pode ser um criadouro do mosquito da dengue e ainda convivemos diariamente com o mal cheiro; Falta de segurança para os funcionários, pois não há controle de quem entra e quem sai do PAM. Ocorrem roubos e furtos quase todos os dias, tanto de materiais do PAM quanto de objetos pessoais de pacientes e funcionários. Se um paciente entrar armado lá, ninguém vai perceber, ele pode matar um paciente ou um funcionário, pois não há como controlá-lo nem como contê-lo, mesmo a guarda municipal estando diariamente presente (uma funcionária)".
O trecho acima faz parte de documento elaborado e assinado por funcionários do Pronto Atendimento Médico (PAM) ao qual o blog teve acesso ( e está de posse)com exclusividade e que não citará os signatários amparado na prerrogativa do sigilo da fonte  e para evitar represálias de uma gestão que já se mostrou nada democrática.
Em outro trecho, os funcionários ponderam sobre as atribuições do PAM:
"* Atendimento de Livre demanda de pacientes, ou seja, o PAM atende a todos os pacientes que precisarem de atendimento, independente de bairro, distrito e/ou cidade;
* Atendimento Pré-hospitalar; ou seja, unidade intermediária de atendimento que está entre as unidade básicas/ESF e o hospital;
*Atendimento continuo, ou seja, em todos os dias da semana, sábados/domingos/feriados (natal/ano novo/pascoa/dias das mães/dias dos pais),18 horas por dia (das 6 as 00).
*Atendimentos de Epidemias (dengue/H1N1), ou seja, o PAM, independente da falta de suporte (equipe reduzida, falta de leitos, falta de médicos, e outros) é quem recebe os pacientes em tempos de epidemia;
*Atendimentos a pacientes que não tem atendimento na unidade básica de saúde, ou seja, se a unidade de básica ou ESF não tem médico e/ou dentista, por inumeras razões, esse paciente é encaminhado ao PAM para atendimento, ou seja, o PAM é sempre "obrigado" a atender a todos. *Atendimento de pacientes de outras cidades, ou seja, os pacientes de cidades vizinhas e/ou viajantes que estão na cidade, somente por alguns dias/meses, quando precisam de atendimento vão buscá-lo no PAM"
 
Nota do blog: sem comentários.Se o Hospital da Vida tem sido chamado (injustamente, por sinal), de hospital da morte, o PAM é, para os funcionários e consequentemente para a população, o portal do inferno.Enquanto falta suporte para soro, grampeadores e os demais materiais básicos para o atendimento à população na estrutura que mais recebe demanda de pacientes, a prefeitura alardeia a construção de "elefantes brancos" na forma de postos de saúde e "choque de gestão" na saúde pública.Uma vergonha.Isso é caso de polícia.

Assassinatos de indígenas no Brasil crescem 269% nos governos Lula e Dilma e petistas já admitem desgaste eleitoral

 
                              Ministro Cardoso(centro) se reúne com lideranças indígenas
 
Os assassinatos de indígenas no Brasil aumentaram 269% nos governos petistas de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff em comparação com os oito anos do tucano Fernando Henrique Cardoso, segundo dados do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), órgão ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e que foi espinafrado pelo presidente do Sindicato Rural de Dourados, Marisvaldo Zeuli, que o culpa pelos conflitos agrários no país, o que equivale a culpar o termômetro pelo grau da febre.
De acordo com o CIMI, foram registrados 167 assassinatos de indígenas no governo FHC, média de 20,8 mortes por ano. Já no governo Lula o número subiu para 452 assassinatos, 56,5 em média por ano, ou crescimento de 271%. Em 2011, o primeiro ano do governo Dilma, foram contabilizados 51 assassinatos de indígenas pelo CIMI e em 2012 outras 57 mortes, de acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), média de 54 mortes por ano, próxima à do governo Lula e 260% maior do que a do governo tucano.

Frustração com Lula
 
Segundo Cleber Buzatto, secretário executivo do CIMI, um dos motivos para o aumento da violência contra indígenas nos governos de um partido que carrega a bandeira dos direitos humanos é justamente a expectativa criada em relação à chegada de Lula ao poder. “Havia uma expectativa muito grande de que com a eleição de Lula seriam destravados os processos de demarcação que historicamente eram muito lentos”, disse Buzatto. “Mas na realidade o que aconteceu foi uma retração ainda maior. Isso levou à radicalizações de conflitos e a uma série de manifestações que acabaram em violência. Eles se sentiram traídos”, completou. Além disso, segundo o CIMI, a lentidão nas demarcações de algumas reservas, principalmente em Mato Grosso do Sul, as transformaram em bolsões de miséria nos quais os indígenas ficaram vulneráveis a situações de degradação social semelhantes às das periferias das grandes cidades como criminalidade, tráfico e consumo de drogas.
Segundo dados da Fundação Nacional do Índio (Funai), foram homologadas 148 áreas indígenas nos dois mandatos de Fernando Henrique e 84 nos governos Lula e nos dois primeiros anos do governo Dilma. Dados do governo informam que foram 91 áreas em favor dos índios nos últimos dez anos. Na aldeia jaguapirú, por exemplo, 13 mil guarani-kaiowá vivem em apenas 3,5 mil hectares, uma densidade demográfica comparável a das piores favelas do País. “Houve conflitos com autoridades, com invasores, com latifundiários e, por fim, entre os próprios indígenas”, disse Buzatto.
 
Falha política e impacto eleitoral
 
Integrantes da cúpula petista já contabilizam a crise indígena na conta das falhas de articulação política do governo Dilma. Em conversas reservadas, petistas criticam a ação da presidente apontando falhas semelhantes ocorridas na votação da MP dos Portos como, por exemplo, a duplicidade de canais de decisão. Para os petistas, as declarações da ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, determinando a suspensão das demarcações primeiro no Paraná – onde ela deve disputar o governo do Estado - e depois em todo o País foram o estopim da crise, com impacto maior do que a morte do índio Oziel Gabriel, pela Polícia Federal , na desocupação de uma fazenda. As decisões de Gleisi foram endossadas pela presidente.
Correligionários de Dilma estão preocupados com o possível impacto eleitoral do episódio. Eles lembram das críticas do PT à violência da Polícia Militar de São Paulo na desocupação do bairro Pinheirinho, em 2012, e dizem que agora o partido não poderá mais empunhar esta bandeira. Além disso, a crise já chamuscou os ministros Gilberto Carvalho (Secretaria Geral) e José Eduardo Cardozo (Justiça), ambos petistas.
No Congresso, há o temor de que a rebelião se espalhe pelas demais potenciais áreas de conflito País a fora, sem contar o desgaste da imagem do governo do exterior, onde Dilma já é vista com desconfiança por suas ações na área ambiental.
 
Delcidio
 
O senador Delcídio Amaral  teme que o caso dos terena se espalhe por outros Estados e defende que o governo compre 57 mil hectares para assentar os índios de Mato Grosso do Sul sem mexer nas terras dos fazendeiros. “É uma questão delicada. O governo não pode subestimar por causa do clamor nacional e internacional”, disse Delcídio. O secretário nacional de Movimentos Sociais do PT, Renato Simões, defende que as negociações se concentrem nas mãos da Secretaria Geral e do Ministério da Justiça. “Esta situação coloca para o governo a necessidade de executar mais ações. A novidade positiva é a autocrítica feita pelo ministro Gilberto Carvalho. Do jeito que as coisas andam, vão acabar levando a um aumento do papel do Ministério da Justiça e da Secretaria Geral e à diminuição da atuação da Casa Civil”, afirmou Simões.
 
Dilma inflexível
 
Apesar das críticas, Dilma não mudou o modelo de negociação com os indígenas, mantendo a participação da Casa Civil, Embrapa, ministérios do Desenvolvimento Agrário, Agricultura, Cidades e Combate á Fome, além da secretaria Geral da Presidência e do Ministério da Justiça, tradicionais interlocutores da área. Em nota, a Casa Civil diz que o objetivo é aprimorar o processo, cujo modelo ficará pronto ainda no primeiro semestre, e alega que os motivos do atraso em algumas demarcações são disputas judiciais, que não dependem do Poder Executivo: "A maior parte dos territórios que hoje está em discussão é de áreas de litígio judicial. São terras reclamadas pelos índios, mas que, em sua maioria, estão ocupadas por agricultores ou estão, inclusive, em perímetros urbanos". A nota informa ainda que as terras indígenas ocupam, hoje, cerca de 120 milhões de hectares - o que representa 13% do território nacional -, a área de plantio (lavouras) 7% e as áreas urbanas e de infraestrutura 2% do território. "Isso comprova o compromisso do Estado brasileiro com os povos indígenas. Apenas nos últimos dez anos, o governo demarcou 91 áreas em favor dos índios", diz a nota.

Relatório "perdido" aponta atrocidades contra índios no Brasil

                               
 
 A descoberta do Relatório Figueiredo, documento de mais de 7 mil páginas relata a violência praticada por forças de Estado contra povos indígenas no Brasil, será fundamental para esclarecer pontos obscuros da história recente do país. O secretário de Articulação Social da Secretaria Geral da Presidência da República, Paulo Maldos, informou que o relatório servirá para trazer à tona “barbaridades” cometidas durante os governos militares. “Nós estamos falando de chacinas, de métodos cruéis utilizados contra índios”, disse o secretário.
O relatório, que se julgava ter sido destruído em um incêndio no Ministério da Agricultura, em junho de 1967, foi encontrado recentemente, intacto, no Museu do Índio, no Rio de Janeiro. O documento aponta o extermínio de tribos indígenas inteiras, métodos cruéis de tortura praticados contra índios, principalmente por interessados em suas terras e com o aval do Estado.
As primeiras informações sobre a existência do relatório foram noticiadas, em abril, pelo jornal O Estado de Minas. As torturas e as chacinas eram cometidas com o apoio do extinto Serviço de Proteção ao Índio (SPI), órgão criado em 1910, quando várias frentes de expansão avançavam para o interior do país. “São casos alarmantes de distribuição de medicamentos com cianureto e de cobertores infectados com vírus que, em vez de amenizar o frio, acabavam dizimando populações inteiras”, afirmou o secretário, que teve acesso ao relatório.
 
Cerca elétrica, veneno para ratos e cobertores infectados
 
Para Maldos, muitos casos envolvendo indígenas no País, mesmo episódios que estão fora do relatório, precisam ser mais estudados. Um caso citado pelo secretário envolve a construção da BR-174, que liga Manaus a Boa Vista e atravessa o território dos índios Waimiri-Atroari. Entre 1972 e 1975, dois mil indígenas dessa etnia, também conhecida como Kiña, desapareceram. “Seus corpos nunca foram encontrados e não constam na lista de desaparecidos políticos durante o Regime Militar”, ressaltou. Pelos relatos dos descendentes, muitos índios Waimiri-Atroaris morreram agarrados nas cercas elétricas espalhadas pelos canteiros de obras. “O que se sabe é eu todos os dias dezenas de corpos precisavam ser retirados das cercas de arame farpado”, destacou Maldos.
A investigação foi feita a pedido do então ministro do Interior, Albuquerque Lima. O procurador Jader de Figueiredo percorreu mais de 16 mil quilômetros, entrevistou dezenas de agentes do SPI e visitou mais de 130 postos indígenas. As páginas do relatório detalham o uso de metralhadoras e dinamites atiradas de aviões nas chamadas “caçadas humanas”. O relatório aponta ainda que, para dizimar tribos indígenas mais isoladas, empresas e agentes públicos distribuíram aos índios açúcar misturado com estricnina, um veneno poderoso usado para matar ratos.
O Estado também foi conivente, de acordo com o documento, com a inoculação proposital do vírus da varíola para dizimar populações inteiras de índios.
 
Tortura
 
Pela descrição do procurador Figueiredo, os postos do SPI eram semelhantes a cadeias, equipados com celas ou quartos de tortura. Os índios que discordavam dos chefes dos postos no SPI, de acordo com o documento, eram amarrados como negros escravos nos antigos pelourinhos e chicoteados com “rabo de tatu”, uma espécie de chicote com argola no cabo e duas talas nas pontas. Índios também eram presos em fossas sanitárias.
Uma das formas de tortura detalhadas no relatório era a “técnica do tronco”, descrita da seguinte forma no documento: “Consistia na trituração dos tornozelos das vítimas, colocadas entre duas estacas enterradas juntas em um ângulo agudo. As extremidades, ligadas por roldanas, eram aproximadas lenta e continuamente”. De acordo com o relatório, a prática era comum e muitos índios foram mutilados por essa técnica e alguns morreram. Ao se aproximarem, as estacas acabavam quebrando os tornozelos dos índios.
No caso de crianças, o relatório também aponta torturas. Um menino de 11 anos contou ao procurador que ficou dependurado pelos polegares, uma técnica que acaba esmagando a ponta dos dedos. Essa mesma técnica, de acordo com o documento foi usada no posto Cacique Doble, localizado no Rio Grande do Sul, para torturar o índio Narcizinho, de sete anos, que além de ser pendurado, foi espancado até a morte. Assim como acontecia com escravos negros, índios também foram comercializados, de acordo com o relatório. O documento relata que uma índia bororó de 11 anos foi dada como pagamento a um operário pela construção de um fogão de barro. O pai da menina, ao reclamar da venda, acabou sofrendo torturas.
 
Caixa preta
 
O conteúdo do relatório foi descoberto pelo vice-presidente do grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo e coordenador do Projeto Armazém Memória, Marcelo Zelic, “Esse material foi parar no Museu do Índio em 2008. De 2008 a 2010, ficou lá, junto com outras 50 caixas que foram recebidas. Curiosamente, as caixas tinham tampas pretas. Era muito curioso isso. E dentro dessas caixas, documentos sensíveis, muitos documentos sensíveis correspondentes a violações de direitos humanos”, comentou. O documento já está nas mãos da psicanalista Maria Rita Kehl, integrante da Comissão Nacional da Verdade e coordenadora do grupo de trabalho, que apura graves violações de direitos humanos no campo ou contra indígenas no colegiado. Zelic também ponderou que a análise do Relatório Figueiredo pela comissão é extremamente necessária, visto que os movimentos para abafar as atrocidades contidas no documento ocorreram no auge da ditadura militar, durante o governo de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). “Ao pesquisar esse período da ditadura a partir da ótica das violações dos direitos indígenas, podemos topar de cara com a importância do Relatório Figueiredo”, observou. “Todo movimento de abafar, de silenciar a repercussão desse relatório foi feito durante o governo Médici, inclusive chamando e convocando o CDDPH (Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), órgão que funciona até hoje no Estado, a se posicionar dizendo que jamais houve genocídio indígena no Brasil, numa reunião em 1970, convocada, é claro, pelo presidente Médici”, ponderou.
 
Publicação
 
Um grupo de senadores, reunidos na Subcomissão da Verdade da Comissão de Direitos Humanos do Senado, quer a publicação do relatório, pelo menos em uma versão compacta, para que a população tenha acesso ao cruel tratamento dispensado pelo Estado brasileiro às populações indígenas. “Revelar a verdade sobre essa tragédia é o primeiro passo para fazer justiça aos índios”, disse a senadora Ana Rita (PT-ES), que é presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado. “O objetivo da publicação é contribuir para o resgate da verdade histórica. Essas nações indígenas foram duplamente vitimadas. Primeiro, pela ação do Estado e das grandes empresas, que invadiram seus territórios dizimando populações inteiras. Depois, pela violência do esquecimento”, explicou a senadora. O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) chegou a realizar uma audiência pública sobre o assunto e acha que o Estado tem que assumir a responsabilidade pelo que está relatado em um documento oficial. “É urgente o esclarecimento do que ocorreu, a responsabilização do Estado brasileiro e a indenização devida aos povos indígenas pelos crimes que foram praticados”, disse o senador. “Acho que é importante uma síntese desse relatório para que ele possa ser publicado e, assim, tornado de conhecimento público”, destacou.