terça-feira, 1 de abril de 2014

Alguns relatos de vitimas da ditadura em MS


O historiador e militante Eronildo Barbosa
Há exatos cinquenta anos atrás, o Brasil viveu um dos momentos mais marcantes da história política da nação. O Golpe Militar de 64 tirou o então presidente, João Goulart, do poder e marcou o início de um período de medo e repressão. O clima de conspiração já tomava conta da noite do dia 31 de março de 1964 em todo o Brasil. Na manhã do dia seguinte, primeiro de abril, já estava deflagrado o golpe militar contra o governo do então presidente João Goulart. Era o início de duas décadas de repressão e violência. 
Assim como em todo o país, em mato grosso do sul lideranças políticas, estudantis e mesmo pessoas que não tinham envolvimento com os setores organizados da sociedade civil foram perseguidas e presas. Militante do movimento estudantil, o ex-senador Valter Pereira foi um dos detidos. “Quando chegava na confluência da rua Dom Aquino com a rua 13 de Maio em frente do inexistente Bando da Lavoura de Minas Gerais, ali eu fui interceptado, os agentes estavam em uma perua Rural Wilis que era muito utilizada nessa época e já me deram voz e prisão ”, diz o ex-senador. Foram seis dias presos no chamado Cadeião, que funcionava onde hoje está o fórum de campo grande, na rua da paz e outros seis no quartel militar, na avenida Afonso Pena. Ele conta que os detidos sofriam intensa tortura psicológica. “As notícias que chegavam eram as mais estapafúrdias, por exemplo, davam conta de que nós seríamos encaminhados para o navio Raul Soares que estava atracado a costa do Nordeste e de lá seríamos encaminhados para alto mar, onde seríamos despejados, outra notícia que chegava com frequência é que nós seríamos levados para base naval de Ladário de onde seríamos conduzidos também em navio para o Rio Paraguai ode teríamos o mesmo destino”, relata Valter. 
Mesmo com o Golpe Militar já consumado existia uma resistência por parte dos apoiadores do João Goulart. Em Campo Grande trabalhadores, sindicalistas e opositores ao regime militar se reuniam em uma casa onde funcionava o Sindicato da Construção, na esperança de que houvesse uma reação ao Golpe. O imóvel, hoje desocupado, era, segundo o historiador Eronildo da Silva Barbosa (amigo pessoal do titular do Blog), espaço de intensa discussão política. “No dia 2 de abril de 1964 estavam reunidos dezenas de sindicalista de vários sindicatos, e pessoa que tinham vinculadas alguma atividade política e que estavam procurando informações da CGT ou mesmo informações interligadas ao governo do João Goulart de que papel ele ia cumprir, que tipo de reação ia acontecer , se iam enfrentar os golpistas , se não iam e o exército e a polícia cercou o sindicato, prendeu quem estava aqui principalmente os dirigentes que tinham um papel mais políticos”, diz o historiador. Alarico e Santa Rosa, ligados ao partido trabalhista brasileiro, também foram presos logo nos primeiros dias. Alarico, amigo de João Goulart e Brizola estava no Rio de Janeiro e sabia que seria detido ao chegar em Campo Grande. “Eu fui lá e me apresentei ao coronel comandante, ele deu um show deprimente, uma covardia sem limite, ele tinha o poder na mão, era o coronel comandante, e eu estava ali desarmado, completamente isolado no gabinete dele e ele passeou na sala em altas vozes: A revolução começou errada tinha que ter corrido sangue, porque aí eu já sabia o que fazer com você”, relata o aposentado, Alarico Reis D'ávila.
“O que acontecia era o seguinte eu nunca fui comunista e não tenho nada contra os comunistas, mas eles viravam os comunista ou subversivo, era taxado não escapava”, diz o aposentado Luiz Gonzaga de Santa Rosa. Eles ficaram presos em uma guarnição do batalhão de polícia, na rua Bahia. Não chegaram a sofrer tortura física, mas eram obrigados a assistir à violência dos militares. “A tortura era psicológica e chamar como preso para assistir um vereador de Rio Verde chamado Antides de Souza Guedes ser torturado para mim foi igual a ser torturado, assisti aquela tortura sem poder fazer nada covarde choque elétrico”, diz Alarico. Santa rosa ficou 28 dias preso. Ele conta que o colega Alberto Neder, médico, foi vítima de uma prisão extremamente violenta. “Ele entrou em Campo Grande na carroceria de um caminhãozinho amarrado, uma humilhação dos diabos”, diz Santa Rosa. Jornais da época, sob a sombra da repressão, não noticiavam os atos militares. 
Uma lacuna na história que vem sendo preenchida. Os fatos ocorridos durante a ditadura militar no Estado são levantados pelo Comitê Memória, Verdade e Justiça de Mato Grosso do Sul. “Tem sido procurado o comitê e sendo feitos vários registros, como por exemplo a questão do jornal o democrata que foi um jornal empastelado, os jornalistas e dirigentes presos e empresários que tinham investimentos promissores na região foram perseguidos e todo seu capital encampado pela ditadura, tem casos registrados de dois cidadãos que sofreram torturas nas dependências do exército situados na avenida Duque de Caxias, que estão registrados”, diz o presidente comitê memória, verdade e justiça, Lairson Palermo. Os registros vão contribuir para os trabalhos do Comitê Nacional da Verdade.

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